Archive for the ‘Notes’ Category

View this post on Instagram

🖤 #morrissey 🖤

A post shared by Luceni Hellebrandt (@hellebrandt) on

[maladjusted]

Há 18 anos atrás uma amiga me levou em um show de um cara que eu não conhecia muito além do nome e de alguns hits…eu não tava preparada para o quanto essa noite, esse show, esse cara iria influenciar minha vida. Quando Morrissey entrou no palco do Opinião (Poa/RS) em fevereiro de 2000, imagino que minha cara deva ter ficado semelhante à da cena de Christiane F., quando ela assiste ao show do Bowie. Devo ter ficado catatônica o show inteiro…lembro da sensação hipnótica e de sair do show com algo diferente. Daquele dia em diante, degustei cada música dos Smiths e Morrissey, achando uma voz para traduzir meus sentimentos…em cada letra, um reconhecimento. A ajuda necessária para sobreviver que só encontramos na arte. Morrissey cantou cada dor que a existência me apresentou e me convenceu rapidinho a parar de comer carne. 18 anos vegetariana…muita gente fica incrédula com este tempo, mas para mim fez todo sentido no momento em que conheci Morrissey e nunca foi difícil.18 anos (e alguns meses), sempre contando com ele nos momentos mais sombrios, nas horas de levantar a cabeça  com o orgulho de assumir minhas escolhas sem me importar com julgamentos alheios, e até dançando sem vergonha…Morrissey me apresentou uma filosofia de vida que me serviu perfeitamente.

Passados estes 18 anos, o sentimento ao revê-lo não tem como ser descrito de outra forma se não o clichê de gratidão. Fiquei muito feliz com o lindo show, com os 90 minutos mágicos, que lavam a alma e reafirmam o myself. Além do momento mágico por si só, uma produção de show impecável, num lugar com acústica e ambientação peculiar para os padrões BR (Fundição Progresso, Rio/RJ) e um setlist que muito me agradou, pois era mais para “next steps” do que para “essentials”. Foi uma experiência necessária para aliviar este ano, tão difícil de sobreviver…Moz nos indicando para resistirmos, nos apoiando nos amigos (se tivermos algum, obviamente). Gratidão eterna para com quem também teve sua alma rejeitada por satan.

 

[Latin America Tour] Morrissey (2018)

Advertisements

“There’s just this for consolation: an hour here or there when our lives seem, against all odds and expectations, to burst open and give us everything we’ve ever imagined, though everyone but children (and perhaps even they) know these hours will inevitably be followed by others, far darker and more difficult.” (p. 225)

[The Hours] Michael Cunningham (1998)

– care funcional / care emocional –

É manhã de domingo e estou terminando de me recuperar de uma semana de dor, febre, enjoo, vômito, diarréia…uma possível stomach flu. Alguns sintomas como dor de cabeça e tontura ainda persistem, mas comparando ao pior momento, posso dizer que estou quase 100% e que saio sem maiores danos dessa semana. Muita água, muito repouso e uma pilha no tanque com praticamente todas as minhas roupas, lençóis e fronhas, ainda meio úmidas das febres noturnas, entram no balanço quantitativo para um total de 7 dias doente. Morar sozinha, distante da família, exige que se aprenda a se virar sozinha, inclusive para enfrentar longos dias de cama. É claro que aqui, como em Amsterdam ou em Florianópolis, tenho uma rede de contatos/amigxs formada por colegas de trabalho, que se oferecem, acredito que sinceramente, com o “se precisar, chama!”. Com o risco de contágio da virose, eu não chamei, mas também não precisei. O care que uma rede de contatos/amigxs formada por colegas de trabalho oferece é um care funcional, não um care emocional. Quando se mora sozinha, distante da família, se aprende a se virar sozinha também emocionalmente, mas se agradece imensamente à existência de WhatsApp e Skype.

– a promessa da felicidade está numa lembrança do passado –

lost paradise_fev2014

[lost paradise] Luceni Hellebrandt (MVD fev 2014)

– shy people learn how to scream in silence as a way to keep breathing –

[white lies] Luceni Hellebrandt (2017)

 

 

– tempos, ciclos, fatos, altos, baixos, continuidade –

Domingo, final de manhã, com uma pontinha de ressaca. Hoje completa 1 mês que estou morando nessa cidade. É uma sequência de fatos que encaminha a vida em uma certa direção, cheia de novos desafios nos quais sempre tento lembrar das pausas para respirar e refletir. Até pouco tempo eu praticamente não havia ouvido falar em Campos dos Goytacazes. Quando surgiu uma possibilidade de mudar minha vida pra cá, as primeiras buscas na internet me desestimularam. Mais uma vez sair do conhecido, do familiar e me jogar numa realidade cultural diferente, lidando com pessoas que eu nunca havia imaginado conhecer e que tinham certa expectativa nas minhas habilidades – expectativas que eu mesma duvido, além do calor. As coisas mudam rapidamente e nosso foco gira 180 graus, de acordo com uma sequência de fatos, mas ainda assim é rápido. Há pouco menos de 6 meses escrevi o post desabafo sobre a prisão que a tese me representava, foi um tempo penoso e fazendo uma análise realista comparativa com o momento atual, posso dizer que estou no “alto” dos “altos e baixos” do processo de “viver”. Saber disso, no entanto, me deixa um pouco apreensiva…a vida é cíclica, logo, o próximo momento tende a ser um “baixo”. Contudo, aprendi ao longo dos anos a valorizar as fases “alto”, tentando desfruta-las ao máximo. Talvez esta reflexão sobre a roda da vida me faça hoje desconsiderar todas as informações desestimulantes sobre a cidade e focar no que está como eu quis. No dia em que escrevi o post desesperado sobre a tese busquei uma alternativa química. Passei a tomar nootropil, um nootrópico vendido livremente em farmácias, “recomendação” de outras pessoas que compartilhavam da minha angústia num grupo de bolsistas no facebook. Eu nunca cheguei a acreditar que o conjunto de produtos químicos pudesse de fato resolver o meu problema, mas o efeito placebo já me bastava. Foram 3 meses, até a data da defesa da tese, tomando regularmente a dose mínima recomendada. O resultado do efeito placebo foi que eu defendi a tese. Parei de tomar o remédio naqueles dias mesmo, não senti qualquer diferença de capacidade cognitiva e/ou dependência química, o que me leva a aprovar o remédio que, com seu efeito placebo em mim, cumpriu o esperado. Dali seguiu um período de encerramento de ciclo e início de nova fase, onde tive que tomar uma decisão importante, com um peso grande. Tinha que decidir entre trabalhar próximo de casa, do familiar que aprendi a valorizar durante meu período na Holanda, ou me lançar na aventura solitária de trabalhar em Campos. O caos e o desafio sempre me foram mais apelativos e agora aqui estou, completando 1 mês como “campista”. O trabalho está acontecendo como o esperado, o local onde eu moro me agrada, o estilo de vida que estou levando é o “modelo instagram” – morar no centro, ter cafeteria / café bom, uma bike bacana, uma rotina que me permite manter minhas atividades físicas e estimula a produzir academicamente. Este é um “alto” que estou valorizando mesmo, merece ser valorizado, também porque batalhei para chegar neste alto. Contudo, ainda que do “alto”, percebo que há “baixos” bem profundos ao redor. A incerteza sobre a bolsa do projeto é a que mais me afeta diretamente. No ambiente geral, a tragédia com o filho dos coordenadores do projeto deixa a todxs impactadxs e reflexivxs. Pensar sobre morte e brevidade da vida não é algo muito estranho para mim. Porém esta familiaridade em nenhum momento torna o subject banal. Ao contrário. Provavelmente reforce meu olhar e minha atitude de valorizar o “alto” e perceber a iminente presença do “baixo”. Enfim, 1 mês com diversos acontecimentos desencadeados por um período maior, de 6 meses (na verdade, muito mais). Talvez eu volte a fazer esta reflexão em um próximo momento, esperançosamente ainda estando no alto, embora uma precaução apreensiva sempre acompanhe meu cotidiano.

You think of start a revolution, but you’ll don’t
You wanna try to do something but you won’t move
You think in all of injustice but you give up
Your anarchist impulse won’t match with your nihilist soul

you’ll just give up
you’ll just give up