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– when survival a day is enough –

Ontem foi um dos piores dias de crise de ansiedade. Eu estava com o dia planejado, não estava muito motivada, mas ok, seria um dia interessante, cumprindo algumas atividades, iniciando com o ato em defesa da educação e seguindo para alguns materiais do projeto que eu precisava finalizar. Acordei um pouco preguicenta, tomei café e fui para o banho pois já era hora de ir para o ato. Saindo do banho, o primeiro desafio do dia: me sentir ok com a roupa que escolhi sair…mais do que uma escolha, foi uma única opção…entre os efeitos do dienogeste (hormônio para controle da endometriose que comecei a tomar no último mês) está o inchaço do corpo, assim, de um dia para outro, todas as roupas param de servir ou apertam. Passados alguns minutos no ato de me convencer de que a bermuda de moletom estava ok, quando estava prestes a sair, desabou uma chuvarada. Pensei que seria uma chuva breve, mas ela persistiu forte, por quase 2 horas. Neste tempo, minha ansiedade aumentou pois queria muito ter participado do ato em defesa da educação e não conseguia aceitar que não tinha como sair. Ver as postagens em redes sociais das pessoas que foram no ato causou um efeito pior em mim, algo como uma derrota por eu não ter conseguido estar fisicamente presente na manifestação. Sei que este sentimento de derrota é estúpido e não condiz com a grandiosidade da luta e que meus ideias contam mais que minha presença física, mas quando estamos psicologicamente vulneráveis qualquer coisa estranha e estúpida nos atinge de uma forma inesperada e devastadora. A questão é que, em função da minha ansiedade, o fato de não ter cumprido a primeira tarefa agendada para meu dia causou um efeito bloqueador no resto das minhas ações, e eu não consegui evitar isso. Deveria ter conseguido contornar, mesmo me dizendo várias vezes para pensar no próximo passo e seguir minha agenda. Nada! Minha mente bloqueou. Não consegui conectar duas frases copiadas de um outro material para fechar um parágrafo da introdução do livro (uma das tarefas que tinha agendada era reescrever a primeira parte do texto de introdução do livro 1 do projeto). Não consegui fazer nada do dito “ser produtivo” profissionalmente. Neste momento conheci uma nova “modinha”: Niksen – “a stress-reducing practice from the Netherlands that literally means to do nothing, or to be idle.” (via https://www.nytimes.com/2019/04/29/smarter-living/the-case-for-doing-nothing.html) e usei para tentar controlar minha ansiedade durante o dia. Usei um combo de materiais que me deixam confortável para exercitar o controle da ansiedade:

Técnicas pra controle / dificuldades do controle:

Headphone e atenção exclusiva ao material sendo reproduzido. Exercitar a atenção exclusiva ao material sendo reproduzido foi tranquilo, pois o desafio principal foi aceitar que eu estava num momento confortável e familiar com o conteúdo que estava vivenciando sem pensar no próximo passo. Ficar no presente e aproveitar ao máximo o  presente sem me preocupar com o futuro. Em vários momentos minha mente escapava tentando buscar o que fazer a seguir e sentia esta angústia do próximo passo danosa. Assim, tentava voltar ao presente e me concentrar na linha da música ou cena do filme. Com isso consegui diminuir um pouco dos efeitos nocivos da ansiedade em 4 – 5 horas do meu dia, tentando mantê-la sob controle. Considerei uma vitória, mesmo que eu não tenha conseguido reverter a situação e ser produtiva…as vezes a fase do controle é demorada e é tão vulnerável que não pode ser subestimada.

Quando acordei hoje, percebi que ainda não estou pronta para o próximo passo. Apesar disso, enxergo um avanço muito pequeno, mas que está lá.  Tinha uma reunião agendada, mas acordei com enxaqueca. Mais do que a intolerância à claridade, uma certeza de que não conseguiria tolerar a interação social. Avisei que não iria na reunião e dormi mais algumas horas, em escuro total. O pequeno passo que me referi é que tentarei fechar alguns textos sem a resistência e o bloqueio de ontem. Espero conseguir. A distância do universo conectado (virtual e presencial) parece menos incômodo hoje. Acredito que isso tem a ver com o exercício de controle da ansiedade.

Enfim, estes dias continuam difíceis, doloridos. Acho que o dienogeste tem amplificado minha ansiedade e estou tentando lidar com minhas reações físicas e psicológicas de maneira respeitosa. One more day.

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I am made of pop – a dark, obscure, subversive and inspirational underground pop, but pop!!

 

[Jean-Michel Basquiat – Works from the Mugrabi Collection]

Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro (2018)

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🖤 #morrissey 🖤

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[maladjusted]

Há 18 anos atrás uma amiga me levou em um show de um cara que eu não conhecia muito além do nome e de alguns hits…eu não tava preparada para o quanto essa noite, esse show, esse cara iria influenciar minha vida. Quando Morrissey entrou no palco do Opinião (Poa/RS) em fevereiro de 2000, imagino que minha cara deva ter ficado semelhante à da cena de Christiane F., quando ela assiste ao show do Bowie. Devo ter ficado catatônica o show inteiro…lembro da sensação hipnótica e de sair do show com algo diferente. Daquele dia em diante, degustei cada música dos Smiths e Morrissey, achando uma voz para traduzir meus sentimentos…em cada letra, um reconhecimento. A ajuda necessária para sobreviver que só encontramos na arte. Morrissey cantou cada dor que a existência me apresentou e me convenceu rapidinho a parar de comer carne. 18 anos vegetariana…muita gente fica incrédula com este tempo, mas para mim fez todo sentido no momento em que conheci Morrissey e nunca foi difícil.18 anos (e alguns meses), sempre contando com ele nos momentos mais sombrios, nas horas de levantar a cabeça  com o orgulho de assumir minhas escolhas sem me importar com julgamentos alheios, e até dançando sem vergonha…Morrissey me apresentou uma filosofia de vida que me serviu perfeitamente.

Passados estes 18 anos, o sentimento ao revê-lo não tem como ser descrito de outra forma se não o clichê de gratidão. Fiquei muito feliz com o lindo show, com os 90 minutos mágicos, que lavam a alma e reafirmam o myself. Além do momento mágico por si só, uma produção de show impecável, num lugar com acústica e ambientação peculiar para os padrões BR (Fundição Progresso, Rio/RJ) e um setlist que muito me agradou, pois era mais para “next steps” do que para “essentials”. Foi uma experiência necessária para aliviar este ano, tão difícil de sobreviver…Moz nos indicando para resistirmos, nos apoiando nos amigos (se tivermos algum, obviamente). Gratidão eterna para com quem também teve sua alma rejeitada por satan.

 

[Latin America Tour] Morrissey (2018)

Acabei de assistir o episódio final de Sense8.

Assisti com certa tristeza pelo cancelamento do seriado, mas não pude evitar alguns pensamentos… com certeza foi o seriado mais queer de audiência acessível que assisti nos últimos tempos.

Penso em como a menos de 2 décadas algo do universo lgbtq era bem mais restrito…

Sempre lembro e faço questão de pontuar como um avanço incrível aconteceu a partir dos anos 2000. Antes disso, tudo era bem mais difícil de acessar, em circuitos bem restritos.

Com Queer As Folk (versão USA 2000 – 2005) e The L Word (2004 – 2009) a tv cumpriu um de seus papéis sociais e naturalizou na tela os sentimentos de tanta gente ao redor do mundo, incluindo os meus, colocando em tela que é ok ser quem você é e gostar de quem(s) você gosta, independente do sexo e/ou gênero da(s) pessoa(s).

Incrível poder chegar num momento em que um seriado como Sense8 coloca tantas possibilidades de relacionamentos afetivos. ❤

Sense8 dá uma sensação de leveza e de esperança… de que é possível!!! (apesar de todo o retrocesso e intolerância que vivenciamos atualmente).

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(from: https://www.advocate.com/television/2017/6/01/fans-petition-netflix-bring-back-sense8-its-not-just-tv-show)

“There’s just this for consolation: an hour here or there when our lives seem, against all odds and expectations, to burst open and give us everything we’ve ever imagined, though everyone but children (and perhaps even they) know these hours will inevitably be followed by others, far darker and more difficult.” (p. 225)

[The Hours] Michael Cunningham (1998)

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[domingo] Luceni Hellebrandt (2017)

– tempos, ciclos, fatos, altos, baixos, continuidade –

Domingo, final de manhã, com uma pontinha de ressaca. Hoje completa 1 mês que estou morando nessa cidade. É uma sequência de fatos que encaminha a vida em uma certa direção, cheia de novos desafios nos quais sempre tento lembrar das pausas para respirar e refletir. Até pouco tempo eu praticamente não havia ouvido falar em Campos dos Goytacazes. Quando surgiu uma possibilidade de mudar minha vida pra cá, as primeiras buscas na internet me desestimularam. Mais uma vez sair do conhecido, do familiar e me jogar numa realidade cultural diferente, lidando com pessoas que eu nunca havia imaginado conhecer e que tinham certa expectativa nas minhas habilidades – expectativas que eu mesma duvido, além do calor. As coisas mudam rapidamente e nosso foco gira 180 graus, de acordo com uma sequência de fatos, mas ainda assim é rápido. Há pouco menos de 6 meses escrevi o post desabafo sobre a prisão que a tese me representava, foi um tempo penoso e fazendo uma análise realista comparativa com o momento atual, posso dizer que estou no “alto” dos “altos e baixos” do processo de “viver”. Saber disso, no entanto, me deixa um pouco apreensiva…a vida é cíclica, logo, o próximo momento tende a ser um “baixo”. Contudo, aprendi ao longo dos anos a valorizar as fases “alto”, tentando desfruta-las ao máximo. Talvez esta reflexão sobre a roda da vida me faça hoje desconsiderar todas as informações desestimulantes sobre a cidade e focar no que está como eu quis. No dia em que escrevi o post desesperado sobre a tese busquei uma alternativa química. Passei a tomar nootropil, um nootrópico vendido livremente em farmácias, “recomendação” de outras pessoas que compartilhavam da minha angústia num grupo de bolsistas no facebook. Eu nunca cheguei a acreditar que o conjunto de produtos químicos pudesse de fato resolver o meu problema, mas o efeito placebo já me bastava. Foram 3 meses, até a data da defesa da tese, tomando regularmente a dose mínima recomendada. O resultado do efeito placebo foi que eu defendi a tese. Parei de tomar o remédio naqueles dias mesmo, não senti qualquer diferença de capacidade cognitiva e/ou dependência química, o que me leva a aprovar o remédio que, com seu efeito placebo em mim, cumpriu o esperado. Dali seguiu um período de encerramento de ciclo e início de nova fase, onde tive que tomar uma decisão importante, com um peso grande. Tinha que decidir entre trabalhar próximo de casa, do familiar que aprendi a valorizar durante meu período na Holanda, ou me lançar na aventura solitária de trabalhar em Campos. O caos e o desafio sempre me foram mais apelativos e agora aqui estou, completando 1 mês como “campista”. O trabalho está acontecendo como o esperado, o local onde eu moro me agrada, o estilo de vida que estou levando é o “modelo instagram” – morar no centro, ter cafeteria / café bom, uma bike bacana, uma rotina que me permite manter minhas atividades físicas e estimula a produzir academicamente. Este é um “alto” que estou valorizando mesmo, merece ser valorizado, também porque batalhei para chegar neste alto. Contudo, ainda que do “alto”, percebo que há “baixos” bem profundos ao redor. A incerteza sobre a bolsa do projeto é a que mais me afeta diretamente. No ambiente geral, a tragédia com o filho dos coordenadores do projeto deixa a todxs impactadxs e reflexivxs. Pensar sobre morte e brevidade da vida não é algo muito estranho para mim. Porém esta familiaridade em nenhum momento torna o subject banal. Ao contrário. Provavelmente reforce meu olhar e minha atitude de valorizar o “alto” e perceber a iminente presença do “baixo”. Enfim, 1 mês com diversos acontecimentos desencadeados por um período maior, de 6 meses (na verdade, muito mais). Talvez eu volte a fazer esta reflexão em um próximo momento, esperançosamente ainda estando no alto, embora uma precaução apreensiva sempre acompanhe meu cotidiano.