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– tempos, ciclos, fatos, altos, baixos, continuidade –

Domingo, final de manhã, com uma pontinha de ressaca. Hoje completa 1 mês que estou morando nessa cidade. É uma sequência de fatos que encaminha a vida em uma certa direção, cheia de novos desafios nos quais sempre tento lembrar das pausas para respirar e refletir. Até pouco tempo eu praticamente não havia ouvido falar em Campos dos Goytacazes. Quando surgiu uma possibilidade de mudar minha vida pra cá, as primeiras buscas na internet me desestimularam. Mais uma vez sair do conhecido, do familiar e me jogar numa realidade cultural diferente, lidando com pessoas que eu nunca havia imaginado conhecer e que tinham certa expectativa nas minhas habilidades – expectativas que eu mesma duvido, além do calor. As coisas mudam rapidamente e nosso foco gira 180 graus, de acordo com uma sequência de fatos, mas ainda assim é rápido. Há pouco menos de 6 meses escrevi o post desabafo sobre a prisão que a tese me representava, foi um tempo penoso e fazendo uma análise realista comparativa com o momento atual, posso dizer que estou no “alto” dos “altos e baixos” do processo de “viver”. Saber disso, no entanto, me deixa um pouco apreensiva…a vida é cíclica, logo, o próximo momento tende a ser um “baixo”. Contudo, aprendi ao longo dos anos a valorizar as fases “alto”, tentando desfruta-las ao máximo. Talvez esta reflexão sobre a roda da vida me faça hoje desconsiderar todas as informações desestimulantes sobre a cidade e focar no que está como eu quis. No dia em que escrevi o post desesperado sobre a tese busquei uma alternativa química. Passei a tomar nootropil, um nootrópico vendido livremente em farmácias, “recomendação” de outras pessoas que compartilhavam da minha angústia num grupo de bolsistas no facebook. Eu nunca cheguei a acreditar que o conjunto de produtos químicos pudesse de fato resolver o meu problema, mas o efeito placebo já me bastava. Foram 3 meses, até a data da defesa da tese, tomando regularmente a dose mínima recomendada. O resultado do efeito placebo foi que eu defendi a tese. Parei de tomar o remédio naqueles dias mesmo, não senti qualquer diferença de capacidade cognitiva e/ou dependência química, o que me leva a aprovar o remédio que, com seu efeito placebo em mim, cumpriu o esperado. Dali seguiu um período de encerramento de ciclo e início de nova fase, onde tive que tomar uma decisão importante, com um peso grande. Tinha que decidir entre trabalhar próximo de casa, do familiar que aprendi a valorizar durante meu período na Holanda, ou me lançar na aventura solitária de trabalhar em Campos. O caos e o desafio sempre me foram mais apelativos e agora aqui estou, completando 1 mês como “campista”. O trabalho está acontecendo como o esperado, o local onde eu moro me agrada, o estilo de vida que estou levando é o “modelo instagram” – morar no centro, ter cafeteria / café bom, uma bike bacana, uma rotina que me permite manter minhas atividades físicas e estimula a produzir academicamente. Este é um “alto” que estou valorizando mesmo, merece ser valorizado, também porque batalhei para chegar neste alto. Contudo, ainda que do “alto”, percebo que há “baixos” bem profundos ao redor. A incerteza sobre a bolsa do projeto é a que mais me afeta diretamente. No ambiente geral, a tragédia com o filho dos coordenadores do projeto deixa a todxs impactadxs e reflexivxs. Pensar sobre morte e brevidade da vida não é algo muito estranho para mim. Porém esta familiaridade em nenhum momento torna o subject banal. Ao contrário. Provavelmente reforce meu olhar e minha atitude de valorizar o “alto” e perceber a iminente presença do “baixo”. Enfim, 1 mês com diversos acontecimentos desencadeados por um período maior, de 6 meses (na verdade, muito mais). Talvez eu volte a fazer esta reflexão em um próximo momento, esperançosamente ainda estando no alto, embora uma precaução apreensiva sempre acompanhe meu cotidiano.

O processo dolorido da Tese

Caos – desespero – estou atrasada para entregar minha Tese e cada minuto que passa, além do desespero aumentar, parece que estou andando na direção contrária.

Não quero mais saber do tema. Não tenho a mínima vontade. Pior que não sei se é só o tema. To com preguiça intelectual. Não quero pensar mais, nem ter que carregar a culpa de escrever, como se essa escrita, quando (se for) publicada, fosse uma verdade da qual eu jamais poderei discordar.

Dia após dia, tentando café, tentando corrida, tentando nadar, usando estes e outros artifícios para tentar voltar ao texto, forçar um foco. E tudo se dissipa.

Não consigo conectar nada. E já nem tenho tanto medo assim de me dar por vencida. De jogar tudo pro alto, dizendo foda-se. Na verdade, to escassa do sentir. Meu cérebro esgotado, mal consegue juntar duas sílabas para formar uma palavra. E, mesmo com tudo isso, só consigo reagir com um foda-se. To escassa do sentir.

Eventualmente, vai passar. Passo a passo, dia a dia, o texto vai surgir. (Será?) Lentamente, e fraco. Vai surgir. Preciso repetir como mantra, um spell, no desejo que se torne real e esta tortura acabe. Não é a primeira vez que o vazio toma conta de mim, justamente quando deveria estar cheia de palavras, para despejá-las sobre o texto, sobre a Tese. Mas não estou.

Tento todos os subterfúgios. Textos diferentes, livros divertidos, programas babacas na TV, seriados teen, interação com outros humanos – esta foi um erro, sempre me esgota -, ressacas gigantescas, pedaladas, piscina, exaustão física, mato, comida. Minha mente não renova. Meu cérebro não reseta. Tá quebrado. Todas as dicas válidas para outrem, para mim de nada adianta. Sleep deprivation, esta nunca falha – até esta falhou. E quando durmo – 2, 6, 10 horas – não faz diferença, acordo como se não tivesse pregado o olho.

Não é o caso de “você precisa desligar um pouco da Tese”. É justamente o contrário. Meu cérebro está totalmente desligado e não consigo reconectá-lo. Vou tentar uma volta ao campo, como último recurso, vou acompanhar o festival dia 2, desejando que o contato com o objeto de pesquisa (embora no calor desumano) me acenda alguma faísca e me faça engatar a discussão final e as conexões entre os capítulos.

Repito também, na esperança de motivação, duas afirmações: a de que o tema é importante para as pessoas pesquisadas, e a de que eu sou uma das poucas pessoas que pesquisam isto no Brasil. Estas afirmações deveriam me motivar, mas o combustível não é suficiente, pois elas estão carregadas de uma responsabilidade que me bloqueia ainda mais pelo medo de não corresponder às expectativas. Eu deveria ter feito diferente, com mais afinco, mas não posso enganar a mim mesma, eu não faria diferente. Não sou do tipo motivada e empenhada. Talvez eu tenha sido, em algum momento do passado, e isso me permite reconhecer o quão longe do ideal minha capacidade atual me permite chegar. De certa forma é triste, pois é como falhar comigo mesma. Tento listar os achievements para não ficar tão na bad, e valorizá-los. Foram bons, mas não me bastam. Uma cobrança imposta pela crença de ser especial, alimentada na infância. Uma dura falácia que até hoje eu não lido bem. De qualquer forma, nada disso pode ser usado como desculpa para minha incapacidade de concluir um compromisso que me propus.

É dolorido, e parece que todas as minhas energias são dispersadas em coisas fúteis, tipo este texto desabafo desnecessário (?). Se ao menos toda esta energia fosse unidirecional, focada em escrever um texto coeso, com sentido, conectado, e que apresentasse uma tese válida. Que dolorido processo, saber a teoria e não conseguir praticar.

Não há atalho, eu sei. O caminho é este. Dia após dia. Repetição. Paciência. Rotina (que minha natureza de eterna busca pelo caos não permite estabelecer). Atingir a concentração e produzir. (Believe me, esta é a conclusão motivacional do texto.)