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Treze razões

Não vejo treze razões. destaco apenas uma, que me pegou. Nostalgia. Estou bem a par das críticas que a internet está discutindo a respeito da new hype netflix serie, como por exemplo as críticas negativas por ignorar o conselho da OMS de glamorizar o suicídio e ignorar o efeito Werther, como também os benefícios de que finalmente está se discutindo este tema entre pais, filhos e ambiente escolar. Exalto a importância que a série destaca ao colocar o bullying como linha de fundo que guia a discussão do que pode impactar na vida de uma pessoa em seu momento mais frágil, a adolescência, e por este fato, acho que a série é louvável.

Apesar desta discussão mais ampla, amparada na repercussão da sociedade, tendo a tomar o particular e evidenciar o que a série tem significado para mim, e quais reflexões tem me causado.

Nostalgia. Foi por este sentimento que a netflix me fisgou Hoje encontrei um aparelho de som na minha casa que possui um deck de cassete e meu instinto primeiro foi o de tentar abrir o deck com um toque…maldita geração do toque…que surpresa ao me deparar com o botão eject, fazendo então se tornar um gatilho (não os que outras pessoas temem, antes de decidirem assistir a série). Aquele botão, pressioná-lo para abrir o deck, ouvir o barulho, vê-lo ativar a porta da fita abrindo… acredito que fazia pelo menos uma década que ouvi estes sons tão cotidianos uma vez em minha vida…sim, eu era uma adolescente que viva de headphone quando eles não eram populares, e que gastava boa parte da ‘mesada’ em pilhas para o walkman.

Esta lembrança nostálgica me conectou com o primeiro episódio em que o protagonista (vivo?) da série enfrenta dificuldade em entender o funcionamento de um dispositivo “ultrapassado”, um boombox (que por essas bandas de cá chamávamos de microsystem, eu acho…).

Mas, definitivamente, o gatilho veio hoje, assistindo o terceiro episódio. Ao final do episódio Clay clipa em sua calça o walkman. Ah gesto tão repetido na minha adolescência… senti verdadeira saudade de fazer este gesto, que era tão natural…passei mesmo minutos refletindo se eu teria algum dos meus wlakmans ainda funcionando, e onde deveria estar “guardado”. Mesmo este sendo o momento nostálgico mais importante da série até agora (eu assisti apenas aos primeiros 4 eps), eu ainda acho que o que define a nostalgia da série são as diversas pedaladas que Clay faz pela cidade onde mora, a qualquer hora do dia ou da noite, no meio da rua, sem se preocupar com um trânsito violento ou o assalto e iminente roubo de sua bike.

Como decaímos tão rápido? De uma hora pra outra não podemos mais pedalar pelas nossas ruas, sem medo. De uma hora pra outra esquecemos como usar um aparelho de cassete, acostumados à portabilidade leve. De uma hora pra outra, passamos de adolescentes que entendiam todo aquele universo para adultos que nem lembram mais como as paredes de banheiro são carregadas de insultos.

O suicídio permanece um tabu. Como qualquer tabu, ele tem este status porque não é discutido. Porque tendemos a colocar um tapete em cima. Seria tão mais simples se todas as pessoas soubessem que ter estes sentimentos é muito mais “normal” do que a sociedade deixa transparecer. Olhando para trás, tive muita sorte de ter pessoas que me disseram que este sentimento lhes era familiar e, acredito, juntas passamos por isso…ao menos em nosso momento mais vulnerável. Não subestimo este sentimento, alojado no canto mais obscuro do meu ser, mas sei que não estou no meu momento mais vulnerável e suscetível. Acredito que, ao invés de colocar um tapete em cima, o mais correto seria dizer que isto acontece, é normal, você não é freak por pensar que a alternativa menos dolorida é cruzar a linha. Tudo bem sentir isso. E o mais importante…tem gente que já sentiu isso e até continua sentindo, mas que continua aqui e pode te ajudar.

Não tenho treze razões, mas aprendi (thank you Shirl) que o truque é continuar respirando…simples assim, um dia após o outro (sem maiores expectativas, mas com uma taça cheia de um bom vinho tinto).

mindThegap_London

[photo @ Schoreditch tube station – London / UK] Luceni Hellebrandt (2015)