Fui pra tantos lados buscando entender mais, eu gosto de conhecer mesmo, mas o vazio continua lá e a certeza que nunca vou me achar aumenta cada vez mais.
Certo é que eu nunca vou estar mais em casa do que esperando um trem que não vem no zoologischen garten ou no meio da princes street ou mesmo traisnpotting pela volta… mas pode ser num canto de um pub qualquer em madchester, ou atravessando uma iron bridge pra andar por macclesfield ou sallford.
Construí tanto um lugar seguro pra minha adolescência que tenho dificuldade hoje de me sentir confortável no mundo que tentei explorar fora disso.
Em 2015 estive frente a frente com ela por 2 vezes. A primeira, quando ela autografou meu M Train – livro que daria sentido à minha travessia de volta pra casa (Amsterdam – Brasil) e, na noite seguinte, no show especial de 40 anos do Horses.
Vê-la ali, a poucos metros de mim, falando de suas lembranças sobre Jimi Hendrix, explicando a musica que escreveu para Jim Morrison… fazendo pausa para virar o disco e tocar o lado B.
Patti Smith tem muitas inspirações, que explicita em suas letras, tanto as musicadas, quanto as eternizadas em paginas de best sellers. Ainda assim, ela não pode ser colocada na caixa de nenhuma destas inspirações. É a soma de todas as melhores partes delas, curadas com uma sensibilidade particular. Ouvir/ler/ver Patti Smith é renovar a alma e se identificar com alguém que também visita túmulos de seus artistas preferidos como forma de pagar tributo e agradecer, na mesma naturalidade de maratonar séries de tv e apreciar um bom cafe. ❤
Faz um tempo que uso a corrida de rua como uma espécie de medicina para lidar com o mundo. Neste tempo pandêmico, tenho me esforçado mais para não falhar às corridas das manhãs de domingo, pois é o momento das ruas vazias na cidade, em que conseguimos observar os detalhes que ficam camuflados pela agitação da semana. Meu percurso sempre varia, mas na maioria das vezes passo por duas praças centrais de Pelotas e, como a corrida funciona para mim como lugar/tempo de observação, reflexão e teorização, percebo angustiada o aumento da população em situação de rua que, aos finais de semana, se espalha como mais intensidade pelas praças públicas. Pelotas é uma cidade de clima frio e no inverno o vento gelado torna mais desumano estar na rua. Os bancos de metal da praça Coronel Pedro Osório passam a vestir os cobertores e edredons da população que ali habita nas manhãs de domingo, junto com outros pertences, reunidos em sacolas plásticas, que são carregadas nesta vida dos nômades urbanos em situação de rua. Por volta das onze horas inicia-se um movimento pelas ruas centrais em direção à praça da avenida Bento Gonçalves, onde um grupo de voluntários distribui marmitas de almoço. Quando faço o percurso entre as 2 praças neste horário, observo este deslocamento, às vezes vão sozinhos, outras vezes, em grupos pequenos de 2 ou 3 pessoas, munidos de seus cobertores e as sacolas de plástico que carregam uma vida. Na praça da Bento, a fila para a banca da Parceiros Voluntários aumenta a cada domingo, reflexo do tempo que estamos vivendo, das escolhas políticas que falham na gestão para garantir o bem mais básico à vida, e a fome só aumenta. A cena frequente e crescente de aumento da pobreza acaba com qualquer alegria da serotonina que a corrida ajuda a despertar, assim como um certo incomodo que me causa as constantes campanhas nos jornais televisivos para arrecadar alimentos, pois a mensagem passada é sobre a obrigação da sociedade civil de doar e nunca responsabiliza os governos que deveriam garantir vida digna.
Amanhã a primeira coisa que vou fazer quando abrir os olhos será tomar minha primeira dose do medicamento de uso contínuo para controlar a Tireoidite de Hashimoto.
Estou incrédula e receosa, pode mesmo todo meu desânimo e cansaço ter relação com o hipotireoidismo e, tratando, podem me abandonar um pouco (talvez até levando uns kgs que insistem em aumentar, apesar do esforço contrário)?
Teste iniciando em poucas horas. E cá está mais uma pessoa que tem que marcar nos formulários que sim, toma medicamento de uso contínuo.
Esta angústia profunda dos domingos reflete bem “vida”. Os longos, tediosos, momentos monótonos de espera por algum bom momento de calma, tranquilidade, sorriso bobo, pequena felicidade. E a monotonia apática ainda deve ser celebrada, pois é preferível aos desesperos anômicos que surgem imprevistos.
Era para ter sido uma manhã de domingo à beira da piscina, bebendo cerveja, fumando um cigarro, ouvindo música, encantada num sorriso de uma gostosa companhia. Teria sentido a vida. Ao invés disso, é este contar sem sentido dos minutos passando, numa espera angustiante de algo que nem existe.
Estava sentada com meu gato no colo [Pucco está velho – eu to velha, nosso corpo sente] lembrando da frase de “The Hours”, quando Leonard está lendo a carta de despedida de Virginia e que ela diz que acredita que ninguém possa ter sido mais feliz do que eles foram. Fico pensando nestes momentos em que tomamos consciência da felicidade e de que não poderemos ser mais felizes do que naquele exato momento. Ao mesmo tempo, desta súbita consciência, o desejo maluco de tentar aproveitar ao máximo aquele momento, mas se preocupar tanto em aproveitar ao máximo, da maneira correta, que se esquece de simplesmente aproveitar. Isto é a ansiedade que me assola diariamente. Hoje acordei melancólica, ouvindo meus discos de vinil do The Cure, em ordem e lados aleatórios. Já revi minhas lembranças em postcards, cartões de embarque, catálogos, dos meus dias europeus. Já bateu uma puta saudade da minha primeira impressão física de Manchester, ainda dentro do ônibus, chegando na estação. Das ruas, da arquitetura de fábrica. “We all look so perfect, as we all fall down!”, ou, como disse Cartola, “o mundo é um moinho, vai torturar teus sonhos, tão mesquinho, vai reduzir as ilusões a pó!”.
E a imagem para ilustrar o post é externa do Banhoof Zoo, que minha lembrança do dia da foto e de minha exploração por la retomam sentimentos extremamente melancólicos.